Sobre empatia e piedade

Cena do filme "Ensaio sobre a cegueira", de Fernando Meirelles, baseado no romance homônimo de Jos;e Saramago.

Das muitas experiências que guardo da primeira vez que li o romance Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, ademais da confusão de sentimentos intensos que a narrativa provoca, é muito presente em minha mente um momento em específico, ao final do livro, quando as personagens começam a recuperar a visão. Após o chamado "primeiro cego" voltar a enxergar e gritar "Vejo", Saramago narra o seguinte:

Então o médico disse o que todos estavam a pensar, mas que não ousavam pronunciar em voz alta, É possível que esta cegueira tenha chegado ao fim, é possível que comecemos todos a recuperar a vista...

A reação do médico no contexto do livro, que narra o dilema humano entre a autopreservação e o afeto, o egoísmo e a solidariedade, sinaliza aquilo que quase instintivamente nos toma em momentos extremos: em geral nosso movimento solidário em direção ao outro parte daquilo que na necessidade demostrada, nos toca. Estavam os outros cegos alegres não pela vista que o companheiro acabara de recuperar, mas porque o ocorrido sinalizava que eles mesmos poderiam voltar a ver.

Saramago está no seleto grupo daqueles que acredito serem otimistas duros. Tão duros que muitos não alcançam a beleza de seu otimismo. Não é superficial, não é fácil, não é barato.

Em momentos extremos como a tragédia ocorrida no Equador na última semana, é comum vermos a mobilização de pessoas, instituições e governos para amparar os afetados. O estímulo à solidariedade parte de todos os lados, de tal modo que é quase impossível não se sentir incomodado caso não queira ou não possa ajudar de alguma forma. Entretanto, é comum que essa mobilização dure o tempo que dura o sentimento, ou até que a distância nos faça acostumar com a tragédia.

Evidentemente, para quem precisa de ajuda, tanto faz o motivo pelo qual alguém o fez, mas um pouco de serenidade nos pode levar a uma reflexão que considero também importante: afinal, o que nos move?

Talvez seja duro, mas não pessimista, afirmar que o que move a grande parte do sistema é o individualismo. Por sistema, quero dizer instituições, meios de comunicação, organizações, empresas e também pessoas. E aqui entra a essencial diferença entre a solidariedade que nasce da empatia e  a caridade, resultado da piedade. 

A piedade pressupõe pena, comiseração, lástima. Olha a tragédia alheia desde cima e em geral carrega junto um certo alívio por ser o outro, não quem a sente, o que sofre. Não é difícil perceber a piedade nos discursos midiáticos, ela precisa do sentimentalismo para sensibilizar, transforma histórias pessoais em novelas dramáticas e a dor do outro em um recurso a ser explorado. Música triste, frases prontas, falso otimismo. A piedade necessita escancarar a tristeza, manipular a dor, ser insistente, estar presente. Só assim ela mobiliza a caridade.

A empatia é distinta. Ela não precisa do drama, pois nasce da identificação. Não é com o outro, é comigo, por que não há como fazer essa distinção. Não existe eu e o outro, existe o nós. A empatia é orgânica e se um sofre, todos sofremos igual. A emoção não é usada, é compartilhada, e a dor, dividida e igualmente suportada. Por isso não é necessário insistir, não precisa de recursos externos para mobilizar. Nos basta a realidade, nosso drama é verdadeiro. O que a piedade entende como ajuda, a empatia entende como atitude. Quando a piedade diz "ajudo porque poderia ser comigo", a empatia diz "atuo porque é com a gente". O centro deixa de ser o indivíduo, o que ajuda ou o que sofre, para ser a coletividade. 

Em alguns idiomas da África subsaariana existe o conceito do Ubuntu, que nas culturas ocidentais contemporâneas ainda é muito difícil comprender. Ele entende o universo como um todo orgânico, que tende à harmonia e onde as individualidades existem apenas como expressão da unidade universal. Nos idiomas ocidentais, o Ubuntu em geral é sintetizado na frase "eu sou porque nós somos". O "eu" é menor do que o "nós".

Em momentos extremos, caridade e solidariedade afloram. Cuidemos para que ela não seja um instante piedoso e passageiro da nossa história, que precisa ser estimulado, não importa como; mas sim uma expressão do entendimento mais amplo daquilo que nos faz humanos.

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