A Tragédia Ignorada



Depois das Guianas e do Suriname, Equador é o país sulamericano mais ignorado pelos brasileiros. Talvez, inclusive, para muitos, seja até uma novidade que Equador seja também um país e que seja vizinho do Brasil. 

No sábado 16 de abril passado esse desconhecido para uma parcela considerável dos brasileiros viveu uma das maiores tragédias de sua história. Um terremoto de 7,8 graus na escala Richter, com apenas 19 km de profundidade e que durou cerca de 40 segundos, devastou o litoral norte do país, sendo sentido em cidades da serra, como Quito (há 200km) e  causando consideráveis estragos até em Guaiaquil, na região centro-sul da costa equatoriana. As cifras até o momento dão conta de 350 mortos, quase 3000 feridos, 150 desaparecidos e danos materiais ainda não dimensionados. Os órgãos responsáveis e a presidência já declararam que a tendência é que os números subam, podendo até mais que duplicar, nos próximos dias, uma vez que ainda existem muitas vítimas que podem estar baixo escombros.

O que já seria uma tragédia pra qualquer país ganha contornos ainda mais dramáticos em se tratando do Equador, um país latinamericano em desenvolvimento, com população próxima aos 16 milhões de habitantes e extensão territorial comparável ao estado do Rio Grande do Sul. Conhecer pessoas atingidas pelos estragos em algum nível é algo comum, o que aumenta o sentimento de empatia, aproxima todos à tragédia e potencializa a tristeza e a dor. O que impressiona nisso tudo é a postura do vizinho gigante, o Brasil. Não teve iluminação no Cristo Redentor, nem telefonema da presidenta, não teve #SomosTodosEquador, nem bandeira no perfil do facebook. Não teve nada, nem uma nota. Nesta segunda-feira (18 de abril), nenhum jornal brasileiro sequer mencionou o ocorrido em suas capas -a maioria tomada completamente pelo tema político. Nos telejornais, concentrados também no circo político, as reportegens (nenhuma com mais de 20 segundos) traziam um Equador distante, exótico, quase outro continente.

O tema da comoção seletiva foi muito debatido à época dos atentados de Paris. Na ocasião, tínhamos inclusive uma outra tragédia, em casa, a de Mariana, ainda hoje sem culpados responsabilizados. Não é novidade que o Brasil escolhe por quem chorar cotidianamente. Não é capaz de fazê-lo pelos seus mais vulneráveis, menos ainda pelos irmãos, mas é carpideira das tragédias do primeiro mundo. Ainda assim tudo isso revolta e entristece.

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