Archive for Abril 2016

Sobre empatia e piedade

No Comments »

Cena do filme "Ensaio sobre a cegueira", de Fernando Meirelles, baseado no romance homônimo de Jos;e Saramago.

Das muitas experiências que guardo da primeira vez que li o romance Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, ademais da confusão de sentimentos intensos que a narrativa provoca, é muito presente em minha mente um momento em específico, ao final do livro, quando as personagens começam a recuperar a visão. Após o chamado "primeiro cego" voltar a enxergar e gritar "Vejo", Saramago narra o seguinte:

Então o médico disse o que todos estavam a pensar, mas que não ousavam pronunciar em voz alta, É possível que esta cegueira tenha chegado ao fim, é possível que comecemos todos a recuperar a vista...

A reação do médico no contexto do livro, que narra o dilema humano entre a autopreservação e o afeto, o egoísmo e a solidariedade, sinaliza aquilo que quase instintivamente nos toma em momentos extremos: em geral nosso movimento solidário em direção ao outro parte daquilo que na necessidade demostrada, nos toca. Estavam os outros cegos alegres não pela vista que o companheiro acabara de recuperar, mas porque o ocorrido sinalizava que eles mesmos poderiam voltar a ver.

Saramago está no seleto grupo daqueles que acredito serem otimistas duros. Tão duros que muitos não alcançam a beleza de seu otimismo. Não é superficial, não é fácil, não é barato.

Em momentos extremos como a tragédia ocorrida no Equador na última semana, é comum vermos a mobilização de pessoas, instituições e governos para amparar os afetados. O estímulo à solidariedade parte de todos os lados, de tal modo que é quase impossível não se sentir incomodado caso não queira ou não possa ajudar de alguma forma. Entretanto, é comum que essa mobilização dure o tempo que dura o sentimento, ou até que a distância nos faça acostumar com a tragédia.

Evidentemente, para quem precisa de ajuda, tanto faz o motivo pelo qual alguém o fez, mas um pouco de serenidade nos pode levar a uma reflexão que considero também importante: afinal, o que nos move?

Talvez seja duro, mas não pessimista, afirmar que o que move a grande parte do sistema é o individualismo. Por sistema, quero dizer instituições, meios de comunicação, organizações, empresas e também pessoas. E aqui entra a essencial diferença entre a solidariedade que nasce da empatia e  a caridade, resultado da piedade. 

A piedade pressupõe pena, comiseração, lástima. Olha a tragédia alheia desde cima e em geral carrega junto um certo alívio por ser o outro, não quem a sente, o que sofre. Não é difícil perceber a piedade nos discursos midiáticos, ela precisa do sentimentalismo para sensibilizar, transforma histórias pessoais em novelas dramáticas e a dor do outro em um recurso a ser explorado. Música triste, frases prontas, falso otimismo. A piedade necessita escancarar a tristeza, manipular a dor, ser insistente, estar presente. Só assim ela mobiliza a caridade.

A empatia é distinta. Ela não precisa do drama, pois nasce da identificação. Não é com o outro, é comigo, por que não há como fazer essa distinção. Não existe eu e o outro, existe o nós. A empatia é orgânica e se um sofre, todos sofremos igual. A emoção não é usada, é compartilhada, e a dor, dividida e igualmente suportada. Por isso não é necessário insistir, não precisa de recursos externos para mobilizar. Nos basta a realidade, nosso drama é verdadeiro. O que a piedade entende como ajuda, a empatia entende como atitude. Quando a piedade diz "ajudo porque poderia ser comigo", a empatia diz "atuo porque é com a gente". O centro deixa de ser o indivíduo, o que ajuda ou o que sofre, para ser a coletividade. 

Em alguns idiomas da África subsaariana existe o conceito do Ubuntu, que nas culturas ocidentais contemporâneas ainda é muito difícil comprender. Ele entende o universo como um todo orgânico, que tende à harmonia e onde as individualidades existem apenas como expressão da unidade universal. Nos idiomas ocidentais, o Ubuntu em geral é sintetizado na frase "eu sou porque nós somos". O "eu" é menor do que o "nós".

Em momentos extremos, caridade e solidariedade afloram. Cuidemos para que ela não seja um instante piedoso e passageiro da nossa história, que precisa ser estimulado, não importa como; mas sim uma expressão do entendimento mais amplo daquilo que nos faz humanos.

A Tragédia Ignorada

No Comments »



Depois das Guianas e do Suriname, Equador é o país sulamericano mais ignorado pelos brasileiros. Talvez, inclusive, para muitos, seja até uma novidade que Equador seja também um país e que seja vizinho do Brasil. 

No sábado 16 de abril passado esse desconhecido para uma parcela considerável dos brasileiros viveu uma das maiores tragédias de sua história. Um terremoto de 7,8 graus na escala Richter, com apenas 19 km de profundidade e que durou cerca de 40 segundos, devastou o litoral norte do país, sendo sentido em cidades da serra, como Quito (há 200km) e  causando consideráveis estragos até em Guaiaquil, na região centro-sul da costa equatoriana. As cifras até o momento dão conta de 350 mortos, quase 3000 feridos, 150 desaparecidos e danos materiais ainda não dimensionados. Os órgãos responsáveis e a presidência já declararam que a tendência é que os números subam, podendo até mais que duplicar, nos próximos dias, uma vez que ainda existem muitas vítimas que podem estar baixo escombros.

O que já seria uma tragédia pra qualquer país ganha contornos ainda mais dramáticos em se tratando do Equador, um país latinamericano em desenvolvimento, com população próxima aos 16 milhões de habitantes e extensão territorial comparável ao estado do Rio Grande do Sul. Conhecer pessoas atingidas pelos estragos em algum nível é algo comum, o que aumenta o sentimento de empatia, aproxima todos à tragédia e potencializa a tristeza e a dor. O que impressiona nisso tudo é a postura do vizinho gigante, o Brasil. Não teve iluminação no Cristo Redentor, nem telefonema da presidenta, não teve #SomosTodosEquador, nem bandeira no perfil do facebook. Não teve nada, nem uma nota. Nesta segunda-feira (18 de abril), nenhum jornal brasileiro sequer mencionou o ocorrido em suas capas -a maioria tomada completamente pelo tema político. Nos telejornais, concentrados também no circo político, as reportegens (nenhuma com mais de 20 segundos) traziam um Equador distante, exótico, quase outro continente.

O tema da comoção seletiva foi muito debatido à época dos atentados de Paris. Na ocasião, tínhamos inclusive uma outra tragédia, em casa, a de Mariana, ainda hoje sem culpados responsabilizados. Não é novidade que o Brasil escolhe por quem chorar cotidianamente. Não é capaz de fazê-lo pelos seus mais vulneráveis, menos ainda pelos irmãos, mas é carpideira das tragédias do primeiro mundo. Ainda assim tudo isso revolta e entristece.