Archive for Abril 2015

ORAÇÃO IMIGRANTE

No Comments »




Conta-se que o escritor argentino Jorge Luis Borges, ao ser perguntado se não estaria feliz pelo campeonato mundial que a equipe de seu país acabara de conquistar em casa, respondeu que não. Que para ele, o fato de uma pessoa nascer a alguns metros para lá ou para cá de uma fronteira imaginária não a faria melhor ou pior que as outras. É verdade que o genial escritor não era muito afeito ao futebol, mas sua resposta revela também o quanto o sentimento competitivo e por vezes bélico que ronda aquilo que entendemos como patriotismo é insano.

Viver longe da quilo que concebemos como nossa terra é uma das experiências mais enriquecedoras que o ser humano pode ter. Mas também pode ser o estopim para preconceitos, arrogâncias e outros sentimentos asquerosos que nutrimos silenciosamente em relação aquilo que somos nós e os que nos cercam.

Ao se conhecer uma cultura e hábitos novos, seja da cidade vizinha ou do país do outro lado do planeta, é quase instantânea as comparações. Isso acontece em quase todas as instâncias, dos costumes à língua, gírias e até crenças.  Invariavelmente percebemos o paradoxo da nossa existência: tão iguais e tão diferentes. O ponto é que semelhanças e distinções não carregam em si os valores que infelizmente lhes atribuímos: bom e mau. Pátria nada mais é do que identidade, quem sou e como fui formado, algo que ganha dimensões mais significativas na diversidade e na interação com o outro.

Como imigrante em um país sulamericano, com uma história e construção social semelhante ao meu, mas com culturas distintas, me surpreendo muitas vezes fazendo comparações sob a perspectiva do bom e ruim. O curioso é que com os países vizinhos, terceiro-mundistas” nós, brasileiros, carentes de protagonismo, temos a tendência de nos supervalorizarmos e desprezar nossos irmãos. Já com os “do norte”, a tend6encia é exatamente oposta. Sintomático.

* * *

A partir desta reflexão e do reconhecimento das minhas tendências e limitações, escrevi a oração que segue, que desejam que sejam minhas palavras diariamente nessa relação intensa entre identidade e a busca do outro.

Peço por mim
e aquele com quem vivo
convivo.
Que saibamos nos encantar.

Que eu jamais esteja tão distante do meu país
que o idealize a ponto de diminuir seus gritantes defeitos
ou que o desvalorize a ponto de não perceber suas inúmeras qualidades.

Que eu jamais esteja tão distante do meu país
que o supervalorize a ponto de menosprezar àquele que me recebe,
ou que o subvalorize, a ponto de me render àquele me trata como intruso.

Que eu jamais esteja tão distante do meu país
que já não me reconheça entre meus conterrâneos,
ou que o faça apenas entre eles.

Que eu jamais esteja tão distante do meu país
que perca minha língua, meus costumes e meus hábitos
ou que não seja capaz de receber e me adaptar a outra língua, novos costumes e outros hábitos.

Que eu jamais esteja tão distante do meu país
que não possa me aproximar e me encontrar no outro.