Archive for Março 2014

Cozinha

1 Comment »


Longe do nosso lugar é onde mais temos oportunidade de conhecer novos sabores. Uma das experiências mais iportantes quando se conhece um lugar novo, seja uma cidade ou um país, é provar o que a culinária da região oferece. E isto é tão revelador quanto qualquer outra maravilha turística que este novo lugar pode nos proporcionar oferecer. Assim como é importante despir-se o máximo possível de nossos conceitos e costumes para vivenciar  pelnamente a cultura de outro povo, é enriquecedor também "zerar" nosso orientado paladar para as desconhecidas, e muitas vezes estranhas, guloseimas que este outro lugar pode oferecer.

Mas o contrário também acontece. Quando se está longe, das coisas que nos conectam a nossa terra, o paladar é uma das mais -senão a mais- eficientes. E fazer essa conexão nem sempre é tão simples. Nem sempre há por perto quem ofereça aquele prato que tanto gostamos, se tentamos nós mesmos fazer, há o desafio de encontrar determinados ingredientes, temperos e até equipamento mais adequado. É preciso adaptar, buscar alternativas, e o resultado nem sempre é o desejado. Vive-se este paradoxo: a desafiadora experiência do "novo", o saudoso sabor do "velho".

Em pouco tempo notei, curioso, que nunca cozinhei tanto como agora, que vivo em Quito. Pratos que nunca sequer me arrisquei nos tempos de Rio de Janeiro, agora são tão frequentes quanto nunca foram naquela época. Inquieto, me pus a perguntar o porquê disso, se a culinária equatoriana é bem variada, intensa nos temperos e gostos, como a brasileira, e igualmente saborosa. Por que esse desejo de ter sempre à disposição os velhos sabores que estive, por toda vida, habituado?

O antropólogo Roberto Da Matta, em seu livro "O que faz do brasil, Brasil", sugere que paladar é um forte aspecto de identidade quando diz "sei, então, que sou brasileiro e não norte-americano, porque gosto de comer feijoada e não hambúrguer". Pode ser, apesar de eu conhecer inúmeros brasileiros, tão autenticamente brasileiros quanto eu, que não suportam feijão. A mim me parece que o gosto culinário não é o aspecto mais significativo da nossa identidade cultural. Ou seja, acredito que ao mesmo tempo que o paladar nos conecta com o que somos, definitivamente não é ele que nos atribui essa auteticidade. .

Ao ser atraído para a cozinha a preparar os pratos da minha terra, percebi em mim pelo menos dois sentimentos. O primeiro foi o prazer de oferecer às pessoas do Equador com quem convivo, um pouco dos sabores que degustei por muitos anos da minha vida. O segundo foi a saudade. E não a saudade do gosto, mas a saudade do tempo.

Ao contrário do que pode sugerir o óbvio, a visão não está entre os sentidos que mais se relacionam com a memória, é o olfato e, consequentemente, o paladar, os que mais nos trazem lembraças. Daí, quando preparo feijão preto na minha casa em Quito, preparo, junto com ele, temperados pela distância no tempo e no espaço, as lembranças de momentos felizes que vivi e de pessoas queridas com quem já não convivo. A comida traz um pouco daquele saudosismo do "éramos felizes e não sabíamos" que todos nós carregamos dentro da gente.

Sendo assim, quem sabe um dia, voltando a viver no Brasil, ou mesmo em outro país, preparar um tigrillo para o café da manhã produza em mim os mesmos sentimentos que hoje me trazem o feijão, o strogonofe, o bobó de camarão...