Archive for Setembro 2013

Pichincha

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Era sexta-feira. Entre as atividades da aula de português que havia preparado, estava descrever pontos turísticos da cidade. Quito tem boas opções urbanas e uma estrutura turística razoável. Mas o que, desde que conheci o Equador mais de perto, me despertou o interesse e curiosidade, foi a sua geografia assombrosamente encantadora.

–E o Pichincha?- perguntei.
–Ah! Essa é uma história triste – respondeu desmanchando instantaneamente o semblante.
–Por quê?– insisti.
Com seu português inseguro e de forte acento hispânico, respondeu:
–Quando eu era mais jovem, todos os dias olhava para o cume do Rucu Pichincia e ele estava branco da neve. Mas hoje isso não acontece mais...

Atribuiu a causa ao desenvolvimento e crescimento de Quito e sua consequente, embora evitável, poluição.

Pichincha é a montanha aos pés da qual se ergueu a capital do Equador. Um dos mais de 50 vulcões do do país, com vários cumes, resultado das diversas erupções ao longo de seus milhares de anos. O que se pode ver de quase toda região central de Quito é o Rucu Pichincha (velho Pichincha, em Quichua), segundo ponto mais alto da montanha, a  4698 metros de altitude. Apenas para efeito de comparação, o Pico da Neblina, ápice do relevo brasileiro, não chega nem a 3000 metros. Seguindo mais adiante na montanha, a oeste de Quito, está Guagua Pichincha (criança Pichincha, em Quichua), que atinge os 4794 metros. Esta trata-se de duas crateras, uma dentro da outra. Ainda aberta.

O Pichincha é imprevisível. Guagua, cratera em atividade, passou dois séculos em sono profundo, levando muitos geólogos da época a crer que já se tratava de um vulcão inativo, quando, em março de 1859, uma erupção quase destruiu a cidade de Quito. Desde então manteve-se em atividade. A última erupção registrada data do recente 1999, quando, mais uma vez, a cidade ficou coberta de cinzas.

Mas, nos últimos anos Rucu foi gradativamente perdendo a coloração branca que pincelava seu cume e dava um tom deslumbrante às vistas de quem o mirava. Atualmente, quando as nuvens nos permitem ver, o que impera é o negra das rochas vulcânicas.

Na segunda-feira seguinte saí, antes que o sol apontasse, a pedalar com destino ao trabalho. Equanto aguardava o sinal liberar meu percurso, olhei pro Rucu, que primeiro recebe a luz da manhã. Não havia nuvens, mas o branco estava lá. Não era neve, era gelo, mas pude mensurar um pouco da dimensão do que já foi, em outros tempos, aquela vista. Deslumbrante. 

lembrei do meu aluno.


História

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Tudo tem história. E toda história é feita de outras muitas histórias. Curioso é imaginar que antes da história contada, todos os acontecimentos são iguais em importância. Depois, quem conta, cria uma hierarquia que coloca alguns em destaque, outros em segundo plano e lança boa parte (a maioria) no esquecimento. O contador determina também a dose de verdade contida nesse emaranhado. Há muito já se desfez a ilusão de que uma história, por mais fictícia que seja, é isenta de verdade, bem como o oposto. "Quem conta um conto aumenta um ponto". E a qualidade de "histórico" para um acontecimento, seja ele qual for, depende sempre de quem conta.

O que se dizia é que aquele domingo era histórico. Quase 55 anos depois de colocada a pedra fundamental do que seria o primeiro templo da Igreja Luterana no Equador, e 400 anos depois da constrção da primeira Igreja Católica no país, pela primeira vez um equatoriano seria ordenado ao sacerdócio. Até então, e por muitos anos, aquela comunidade foi orientada por líderes vindos de outros países. Sim, era um domingo histórico. Mas a história que me chamou a atenção, e que evidencio aqui, não foi aquela que naquele dia entrava para a história da Igreja Luterana do Equador. 

Entre os convidados para celebrar a cerimônia estava o Obispo Maderado Gomez, da Igreja Luterana Salvadoreña. Ao final da reunião, quando parentes e mestres do recém ordenado primeiro pastor Luterano equatoriano (Ramiro Arroyo Ponce) faziam seus discursos, Maderado, à sua vez, tomou a palavra e contou uma história. Dizia que trouxe consigo para aquele dia hisórico, de seu país, a cruz que enfeitava aquele altar. Uma cruz de madeira, simples e sem luxo, como tantas outras cruzes que ornamentam igrejas cristãs. Aquela, entretanto, dizia Maderado, por sua história, ficou conhecida como a Cruz Subversiva.

Maderado contou que no ano de 1989, dias depois de se intensificar a guerra civil em El Salvador (como tantos outros arrouxo políticos da América Latina, patrocinada pelos Estados Unidos), o governo ditador e seus militares buscavam eliminar ideias que supunham estimular subversão social. Como resultado dessa investida, alguns líderes de igrejas cristãs, católicas e protestantes, pagaram com suas vidas. Certa madrugada, um grupo de militares invadiu a Universidade Católica de San Salvador e assassinou, no pátio, seis sacerdotes Jesuítas e seus trabalhadores. O acontecimento espalhou medo e terror por todo país e os militares seguiram buscando outras vítimas de sua lista.

Atemorizados pelas circunstâncias, alguns estrangeiros luteranos, residentes em El Salvador, decidiram proteger o Obispo Maderado, levando-o a um lugar seguro e, posteriormente, para fora do país. A iniciativa foi providencial. Dias depois do assassinato dos Jesuítas, os militares foram à Igreja liderada por Maderado para assassiná-lo. Naquela ocasião o templo servia também de refúgio para muitos flagelados pela guerra e, ao não encontrar o Obispo, os militares detiveram alguns estrangeiros e salvadorenhos que estavam na igreja e levaram também a cruz do altar.

Os presos foram levados ao cárcere e a cruz, símbolo cristão de denúncia ao pecado, levada ao local de interrogtórios e torturas. Alguns dos presos tempos depois testemunharam terem sido interrogados ante a cruz, que os militares chamavam de puta, vangloriando-se por mantê-la presa.

Passados alguns meses, com ajuda de cidadãos luteranos estadunidenses, Maderado, fora de El Salvador, consegue um encontro com o Embaixador americano e aproveita a ocasião para pedir o regresso da cruz. O embaixador então entra em contato com o Presidente Salvadorenho naquela ocasião que resgata a cruz e a leva para a Casa Presidencial.

Quando Maderado, auxiliado por sacerdotes alemães, finalmente consegue regressar ao seu país, a cruz, então, retorna ao seu lugar. Agora conhecida como a Cruz Subversiva, aquele símbolo, antes representante dos pecados do povo, denunciava a partir de então, os pecados ao povo. Os membros da comunidade escreveram esses pecados em sua madeira. 

Naquele domingo histórico, a Cruz Subversiva, como foi a cruz de Cristo, e como são as cruzes por sua natureza, denunciava, pelas palavras marcadas nela e na sua história: a injusticia social, violacição dos Direitos Humanos, bombardeios, assassinatos, desaparições, discriminação da mulher, ambição pelo poder etc.

Estômago

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Naquela noite a dor venceu o sono. Eram quase 3 horas da madrugada de uma segunda-feira quando os olhos abriram e a sensação incômoda, antes confundida pelas criações da mente, se mostrou muito real. Levantei-me, caminhando meio encurvado, parte pelas articulações ainda sonolentas, parte pela dor que se intensificava a cada instante. Fui ao banheiro, mirei o espelho. Tomei um copo de água e, ainda com muitas dores, voltei a deitar. O dia seguinte era de trabalho, precisava dormir. A noite e o sono seguiram, mas sem os indispensáveis conforto e qualidade. 

Mal podia imaginar que era apenas o começo.

Por toda uma semana sofri com dores estomacais. Era como se tudo que eu ingerisse ganhasse propriedade inflamável no instante em que entrasse no meu estômago. O diagnóstico óbvio: gastrite. Justo eu, que sempre me vangloriei das doses exageradas de café e outras bebidas, cujo bom senso e os profissionais da saúde sugerem moderação, sem sofrer efeitos além dos prazeres inerentes. Agora agonizava sob suas mais cruéis consequências.

O que eu displicentemente ignorei foram os efeitos da altitude, que vão muito além das eventuais faltas de oxigênio. A 2800 metros de altura o organismo habituado ao nível do mar trabalha de maneira diferente. A digestão é mais lenta e sem o devido cuidado o estômago sofre. Depois de dois meses já me imaginava tal qual um nativo e reproduzia, com ainda mais intensidade, os hábitos tropicais. Resultado: uma semana sem os líquidos que mais apreciados.

Castigo mais que suficiente. Aos poucos volto à rotina. Miro a cafeteira, sinto como se gritasse meu nome. Mas a memória dos momentos de dor mais aguda logo me trazem de volta ao bom senso. Já voltei a tomar café, mas com leite. Puro, só em doses bem controladas. O fim de semana está chegando, não quero me privar também da minha querida cerveja. Manter esse triângulo amoroso, em Quito, não está nada fácil.

Alarme

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-Corta!

O diretor interrompe a gravação da cena enquanto aguarda o desconhecido dono do automóvel, estacionado na rua ao lado da casa escolhida como do set, desligar o alarme do carro.

Não muito distante dali, um professor pedala sua bicicleta a caminho da aula. Enquanto espera o sinal fechar para cruzar a movimentada avenida, atrás dele, outro alarme dispara. Era uma picape estacionada frente a uma loja qualquer, o alarme foi acionado sem motivo algum. Ele segue para aula onde, dali ha poucos minutos, terá de pedir que seus alunos esperem até que outro alarme, esse de um carro desconhecido fora da escola, pare de soar.

Neste mesmo dia, um casal de moradores de um dos edifícios residenciais de Quito era despertado, às 4h da manhã, pelo alarme de algum carro na garagem do prédio vizinho. Não foi a primeira vez. A cena era frequente desde que, recentemente, haviam se mudado para aquele condomínio. Nele, aliás, é comum, todos os dias pela manhã, quando os moradores saem para trabalhar, soarem apitos de alarmes dos carros. Os sinais sonoros, hora  ativando, hora desativando os tais sistemas de segurança, todos os moradores já sabem de cor: dois apitos para o primeiro, três para o segundo.

Certo sábado um dos vizinhos preparava seu automóvel supostamente para passear com a família. De qualquer apartamento era possível perceber que a bagagem era grande. Foram pelo menos cinco viagens do apartamento ao automóvel. Em todas elas a ensaiada sequência: desativa o alarme, dois sinais sonoros, abre o porta-malas, fecha  o porta-malas, ativa o alarme, três sinais sonoros. Em uma dessas idas e vindas, enquanto buscava em seu apartamento mais uma parte da bagagem, o alarme do carro disparou. Foram longos os poucos minutos até que retornasse para fazer reinar, mais uma vez, embora por pouco tempo, o desejado silêncio.

A resposta para a fixação dos quitenhos com os alarmes não é tão óbvia quanto esse curioso hábito. A cidade, como qualquer outra grande cidade do mundo, também sofre com os roubos de automóveis, mas os índices nem de longe podem ser comparados às maiores cidades brasileiras. Só para se ter uma ideia, Quito registrou, em 2012, aproximadamente 2000 roubos de veículos, enquanto a cidade de São Paulo alcançou o mesmo número em apenas um mês daquele ano. Além disso, nem em Quito, nem em nenhum lugar do mundo, o alarme de um carro desperta qualquer sensação de segurança em quem ouve. 

Motivos à parte, viver em Quito é acostumar- se à sinfonia dos alarmes de carro.

República das Bananas

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Sempre escutei a expressão que escolhi como título deste texto em referência depreciativa ao Brasil. Apesar de ter sido cunhada para Honduras, a imagem de Carmem Miranda com a fruta adornando sua cabeça e o preço ridiculamente barato (segundo a crença popular) em terras tupiniquins transformaram a banana quase um símbolo do Brasil tropical. 

Pelo menos para os brasileiros.

Basta uma caminhada de alguns minutos pelas ruas de Quito para ver mais bananas do que em seria possível em muitos dias no Brasil. Em cada esquina, lá estão elas, assadas, recheadas com queijo e vendidas a um dólar, para saciar a fome momentânea dos transeuntes.

Dizem que os esquimós são capazes de diferenciar mais de cem tonalidades do branco presente na neve e para cada uma eles têm uma nome diferente. A abundância produz categorizações. E foi em um café da manhã que tudo começou. Na ocasião, fui gentilmente servido de um desconhecido bolo, em formato esférico e textura semelhante a uma massa de farinha:

–Tem gosto de banana, do que é feito?– perguntei.
–Se chama bolón, é feito de plátano verde amassado– rapidamente responderam.
–Ah, banana verde?

A reação pareceu a altura do meu absurdo questionamento. Como assim banana verde? Para qualquer equatoriano banana (ou banano, como dizem aqui) é fruta, plátano não, esse é verdura!

–Mas o gosto é de banana–insisti.
Banano é fruta, que se come cru. Plátano não!

Assunto encerrado.  Me senti como um típico tropical insistindo com um esquimó que a neve é simplesmente branca. Minha cabeça entrou em parafuso. 

A suposta banana assada com queijo que citei anteriormente, em todo Equador, não é conhecida por outro nome senão "maduro". Nada mais é do que o mesmo plátano, maduro, como o nome sugere, e aquecido. Do plátano verde se faz ainda os deliciosos e tradicionais patacones equatorianos –algo de aspecto semelhante a um pão-de-queijo, feito exclusivamente com a intrigante "verdura"– além de chips, que até então só conhecia feitos de batata.

Recorri ao google, descobri que o tal plátano é, na verdade, uma variação da banana, de polpa mais rígida e casca mais grossa que, por suas propriedades naturais, não pode ser ingerido cru. No Brasil, particularmente, desconheço sua existência, mas em Portugal o plátano é conhecido como banana-pão.

Seja lá como optemos chamar, plátano ou banana-pão não são verduras. Cientificamente o alimento é classificados como fruta. Mas quem se importa? O tomate também não é?

Distante

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Distante no tempo...
Ou nem tão distante assim. Foi no fim de 2008, depois de um ano conturbado e algumas escolhas difíceis, eu tentava colocar o comboio outra vez no trilho para, quem sabe no ano seguinte, as coisas caminharem mais serenas. Entre os planos, voltar a me dedicar, também à música. Eu queria outra vez tocar numa banda. Compartilhei o desejo com alguns amigos, que já se articulavam na mesma direção. Tudo certo, mas nos faltava uma voz.

Não demorou muito, a voz apareceu. Foi por acaso, como são as melhores coisas. Nos primeiros dias de 2009 já tínhamos uma banda. Num encontro a sós, nos jardins do MAM do Rio, descobri que a voz era bem mais: cantava, tocava e compunha. Naquela tarde rabiscamos uns versos que depois lapidados, ajustados e bem colocados, veio a ser parte da música "Fotografe".

Passado algum tempo, no ainda nem tão distante, deixei a banda. Era maior que eu e meu comboio já me demandava outros rumos. Como amigos que somos, todos, mantivemos contato, embora distante. Mais um pouco de tempo e ela, a voz, também seguiu seu rumo solitário. Os quase dois anos de convivência –a banda, a voz e eu– foram de ânimos e experiências intensas e memoráveis.

...

Distante no lugar...
De volta ao tempo presente, envolto na rotina –ou mais precisamente, na falta de rotina– que uma mudança de país é capaz de provocar, ela, a voz, me chama no batepapo do Facebook. Marcela, a mais-que-voz. Me recordou uma outra conversa, esta não tão distante assim, em que contava haver utilizado versos do Simples Acaso para terminar de compor a música que estava lançando como Mahmundi. Ela, porém, me chamava pra contar outra novidade:

–Então, fui indicada com essa música para o Prêmio MultiShow, e você, como um dos compositores, foi convidado. Onde você está? –escreveu.

Estava aqui onde estou, distante. Agora, minha casa é o Equador. Mas é claro que me senti feliz com a menção e o convite. Preciso dizer  também que me senti desprovido de qualquer mérito. A letra de "Calor do Amor", indicado ao prêmio na categoria "Novo Hit" foi um mosaico muito bem elaborado de versos da Marcela, Roberto Barrucho e Marcos Almeida, completados com algumas frases que poetizei no meu antigo blogue.

A internet facilitou o contato entre muitas distâncias, ao mesmo tempo que evidenciou a grandiosidade delas. De Quito, pela internet, pude acompanhar toda a festa de premiação. Mas, até este momento, o Brasil nunca havia me parecido tão distante. Na hora em que "Calor do Amor" foi anunciada como vencedora de sua categoria, não tive reação. Quis fazer tudo o que é possível para uma comemoração, mas pouco fiz. Registrei minha alegria nas redes sociais, que é desses espaços permite dizer-nos felizes mesmo sem esboçar sequer um sorriso, e escrevi para Marcela, enquanto a via, junto com Roberto e Marcos, subir ao palco para receber nossas medalhas. 

Naquele instante, queria mesmo era estar perto.

Óbvio, fiquei e estou feliz. No fim, com antes, me sinto honrado e lisongeado. É um orgulho contribuir para um prêmio como este. Agradeço e parabenizo a Marcela, a Mahmundi, a mais-que-voz, pelas histórias: a de anos atrás e a que nos fez chegar a este prêmio... apesar das distâncias.

Multiverso

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Não somos musicais.
Assim, de forma enfática e objetiva, afirmava o articulista equatoriano de certa revista, também do Equador, a respeito de seu povo. Nas duas páginas seguintes, o autor justificava a sentença usando toda sua habilidade textual. Inclusive, para tentar diminuir o impacto que tal ousadia podia eventualmente causar em um leitor mais apaixonado. Citava como exemplo de países musicais Brasil e Cuba, e dizia ser o Equador um país majoritariamente visual. Argumentava mencionando a ausência de expoentes internacionais genuinamente equatorianos na musica, enquanto que em nas artes plásticas, possuíam nomes do porte de, entre outros, Oswaldo Guayasamín e Gonzalo Endara (este último, um das grandes figuras do realismo mágico latinoamericano).

Infelizmente deixei o exemplar onde encontrei, no compartimento apropriado do avião, afim de entreter outro passageiro. 

Longe de mim querer contrariar o autor, mas, associando seu texto à fala Mia Couto, um dos grandes escritores de língua portuguesa na atualidade, me pus a pensar eventuais limites que nos separam. As fronteiras territoriais de Equador, Brasil e Cuba estão postas no mapa, mas onde estão as divisas culturais que fazem, por exemplo, do primeiro um país visual enquanto os outros, musicais? E mais especificamente no caso de Brasil e Equador que, fisicamente, estão muito próximos? O idioma diferente até pode ser uma dessas fronteiras, mas a experiência ensina que mesmo a língua distinta pode se revelar uma encantadora conexão.

...

Certa tarde conversávamos sobre nossas impressões daquele país que não era nosso. Falávamos de hábitos, costumes, práticas e regras de convivência incomuns para nós, estrangeiros. Nesta conversa, ignorávamos o curioso fato de que, sendo brasileiros, vínhamos de lugares distintos, que possuíam também, nesses mesmos elementos, muitas diferenças. E não seriam as diferenças a nos fazerem iguais? Afinal, somos diferentes, inclusive, enquanto pessoas.

Sim, as diferenças nos fazem iguais. Por possuirmos diferenças –individuais, culturais ou territoriais– somos, na verdade, muito semelhantes. E antes de sermos cariocas, gaúchos, paulistas, soteropolitanos ou goianos, somos todos brasileiros.  Antes de brasileiros, latinoamericanos. Mas, acima de tudo, somos seres humanos.