Um Nobel seria pouco para a música brasileira

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Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, Tom Jobim, Jack Lang, Caetano Veloso e Chico Buarque

"Poesia sem música é como moinho sem água"
Trovador

Na semana em que o mais importante prêmio literário foi outorgado a um compositor, um debate surgiu na nova praça pública que são as redes sociais digitais: pode a música ser considerado um produto literário? A justificativa da Academia sueca ao galardoar Bob Dylan com o Nobel de Literatura de 2016 não deixa dúvidas que sim, Nas palavras da Secretária-Geral Sara Danius, o artista estadunidense foi o escolhido por "criar novas expressões poéticas dentro da grande tradição da música americana" [1]. Mas a simples discussão sobre a relação entre música e literatura, que gerou até uma extensa manifestação do mítico salseiro Rubén Blades em sua conta oficial no Facebook, já nos aponta algumas questões.

Não parece difícil, em princípio, fazer distinção entre um produto cultural musical, de outro, literário. Contudo, de acordo com o que a professora Solange Ribeiro Oliveira, retomando de Calvin Brown, afirma em seu artigo Leituras intersemióticas: a contribuição da melopoética para os estudos culturais:

Percorrendo sua trilha histórica, Brown vislumbra um passado quase lendário, quando Música, Literatura e Dança integrariam uma única atividade, anterior à própria conceitualização de arte [2].

Música e literatura, hoje elementos culturais distintos, já foi em algum momento histórico, certamente, antes da cultura letrada, algo único. A professora acrescenta ainda que a ligação que ambos mantêm desde então, tem um caráter variável, que responde a diferentes épocas e culturas. Nesse sentido, é relevante destacar o que diz o professor e músico José Miguel Wisnik no documentário brasileiro Palavra (En)Cantada [3]. Wisnik resgata a ideia da "gaia ciência" nietzschiana, que explica como sendo uma espécie de "saber alegre" que remete ao modo como os trovadores se referiam ao seu fazer, um fazer poético e musical que tinha uma dimensão de saber. Concordando com o que afirma Solange Ribeiro de Oliveira, Wisnik acrescenta que, assim como o trovadorismo provençal e o lirismo grego, que representam "momentos felizes de conjunção" entre melodia e poesia, o Brasil viveria, na contemporaneidade, um desses ciclos culturais de encontro da música com a literatura. Mais do que uma simples "convergência" esse encontro representa a combinação entre cultura letrada e cultura oral, o erudito e o popular.

A própria Sara Danius, em entrevista coletiva após o anúncio do Nobel de Literatura 2016, fez referência aos poetas gregos Homero e Safo. Segundo a secretária-geral da Academia sueca "eles escreveram textos poéticos que foram feitos para serem ouvidos, declamados, muitas vezes com instrumentos, do mesmo jeito que Bob Dylan" [4].

No Brasil, ao menos para minha geração, não é incomum que a porta de entrada para a poesia e a literatura seja a música. Desde o encantamento com as melodias de Vinícius de Moraes, que raramente não conduz à leitura de seus poemas, até o momento mágico (de imagem, imaginário, a "imaginação criadora" que segundo Duch e Chillón [5] é o meio pelo qual o sujeito configura suas sensações) em que a melopoética* passa da significação ao sentido, e nos apropriamos daquela obra a partir de nossas subjetividades. Não faltariam nomes para citar, de Caetano a Chico Buarque, de Milton Nascimento a Gonzaguinha, Tom Zé a Arrigo Barnabé, Tatit a Itamar Assumpção.

Não fosse a inclinação hegemônica que persiste no histórico de laureados pelo Nobel de Literatura ‒a maioria autores de idiomas germânicos ou itálicos de países do hemisfério norte: EUA e Europa‒, talvez o representativo prêmio desse ano (sem o desmerecimento da escolha de Dylan) viesse para algum dos muitos melopoéticos compositores brasileiros.

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[1] G1, “Bob Dylan ganha o Prêmio Nobel de Literatura 2016”, Pop & Arte, el 13 de octubre de 2016, http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2016/10/bob-dylan-ganha-o-premio-nobel-de-literatura-2016.html.
[2] Solange Ribeiro Oliveira, “Leituras Intersemióticas: A Contribuição da Melopoética para os Estudos Culturais.”, Cadernos de Tradução (UFSC), 2001, UFSC edición, sec. v.7, n.1.
[3] Helena Solberg, Palavra (En)Cantada, Documentário, (2009), https://www.youtube.com/watch?v=liWshEbz8Ik.
[4] Oliveira, “Leituras Intersemióticas: A Contribuição da Melopoética para os Estudos Culturais.”
[5] Lluís Duch y Albert Chillón, Un ser de mediaciones: antropología de la comunicación (Herder, 2012).

* O conceito de melopoética advém da disciplina que, segundo Solage Ribeiro Oliveira, foi constituída por Paul Scher.  Meolopoética, assim, deriva do grego melos (= canto) + poética

Sobre empatia e piedade

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Cena do filme "Ensaio sobre a cegueira", de Fernando Meirelles, baseado no romance homônimo de Jos;e Saramago.

Das muitas experiências que guardo da primeira vez que li o romance Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, ademais da confusão de sentimentos intensos que a narrativa provoca, é muito presente em minha mente um momento em específico, ao final do livro, quando as personagens começam a recuperar a visão. Após o chamado "primeiro cego" voltar a enxergar e gritar "Vejo", Saramago narra o seguinte:

Então o médico disse o que todos estavam a pensar, mas que não ousavam pronunciar em voz alta, É possível que esta cegueira tenha chegado ao fim, é possível que comecemos todos a recuperar a vista...

A reação do médico no contexto do livro, que narra o dilema humano entre a autopreservação e o afeto, o egoísmo e a solidariedade, sinaliza aquilo que quase instintivamente nos toma em momentos extremos: em geral nosso movimento solidário em direção ao outro parte daquilo que na necessidade demostrada, nos toca. Estavam os outros cegos alegres não pela vista que o companheiro acabara de recuperar, mas porque o ocorrido sinalizava que eles mesmos poderiam voltar a ver.

Saramago está no seleto grupo daqueles que acredito serem otimistas duros. Tão duros que muitos não alcançam a beleza de seu otimismo. Não é superficial, não é fácil, não é barato.

Em momentos extremos como a tragédia ocorrida no Equador na última semana, é comum vermos a mobilização de pessoas, instituições e governos para amparar os afetados. O estímulo à solidariedade parte de todos os lados, de tal modo que é quase impossível não se sentir incomodado caso não queira ou não possa ajudar de alguma forma. Entretanto, é comum que essa mobilização dure o tempo que dura o sentimento, ou até que a distância nos faça acostumar com a tragédia.

Evidentemente, para quem precisa de ajuda, tanto faz o motivo pelo qual alguém o fez, mas um pouco de serenidade nos pode levar a uma reflexão que considero também importante: afinal, o que nos move?

Talvez seja duro, mas não pessimista, afirmar que o que move a grande parte do sistema é o individualismo. Por sistema, quero dizer instituições, meios de comunicação, organizações, empresas e também pessoas. E aqui entra a essencial diferença entre a solidariedade que nasce da empatia e  a caridade, resultado da piedade. 

A piedade pressupõe pena, comiseração, lástima. Olha a tragédia alheia desde cima e em geral carrega junto um certo alívio por ser o outro, não quem a sente, o que sofre. Não é difícil perceber a piedade nos discursos midiáticos, ela precisa do sentimentalismo para sensibilizar, transforma histórias pessoais em novelas dramáticas e a dor do outro em um recurso a ser explorado. Música triste, frases prontas, falso otimismo. A piedade necessita escancarar a tristeza, manipular a dor, ser insistente, estar presente. Só assim ela mobiliza a caridade.

A empatia é distinta. Ela não precisa do drama, pois nasce da identificação. Não é com o outro, é comigo, por que não há como fazer essa distinção. Não existe eu e o outro, existe o nós. A empatia é orgânica e se um sofre, todos sofremos igual. A emoção não é usada, é compartilhada, e a dor, dividida e igualmente suportada. Por isso não é necessário insistir, não precisa de recursos externos para mobilizar. Nos basta a realidade, nosso drama é verdadeiro. O que a piedade entende como ajuda, a empatia entende como atitude. Quando a piedade diz "ajudo porque poderia ser comigo", a empatia diz "atuo porque é com a gente". O centro deixa de ser o indivíduo, o que ajuda ou o que sofre, para ser a coletividade. 

Em alguns idiomas da África subsaariana existe o conceito do Ubuntu, que nas culturas ocidentais contemporâneas ainda é muito difícil comprender. Ele entende o universo como um todo orgânico, que tende à harmonia e onde as individualidades existem apenas como expressão da unidade universal. Nos idiomas ocidentais, o Ubuntu em geral é sintetizado na frase "eu sou porque nós somos". O "eu" é menor do que o "nós".

Em momentos extremos, caridade e solidariedade afloram. Cuidemos para que ela não seja um instante piedoso e passageiro da nossa história, que precisa ser estimulado, não importa como; mas sim uma expressão do entendimento mais amplo daquilo que nos faz humanos.

A Tragédia Ignorada

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Depois das Guianas e do Suriname, Equador é o país sulamericano mais ignorado pelos brasileiros. Talvez, inclusive, para muitos, seja até uma novidade que Equador seja também um país e que seja vizinho do Brasil. 

No sábado 16 de abril passado esse desconhecido para uma parcela considerável dos brasileiros viveu uma das maiores tragédias de sua história. Um terremoto de 7,8 graus na escala Richter, com apenas 19 km de profundidade e que durou cerca de 40 segundos, devastou o litoral norte do país, sendo sentido em cidades da serra, como Quito (há 200km) e  causando consideráveis estragos até em Guaiaquil, na região centro-sul da costa equatoriana. As cifras até o momento dão conta de 350 mortos, quase 3000 feridos, 150 desaparecidos e danos materiais ainda não dimensionados. Os órgãos responsáveis e a presidência já declararam que a tendência é que os números subam, podendo até mais que duplicar, nos próximos dias, uma vez que ainda existem muitas vítimas que podem estar baixo escombros.

O que já seria uma tragédia pra qualquer país ganha contornos ainda mais dramáticos em se tratando do Equador, um país latinamericano em desenvolvimento, com população próxima aos 16 milhões de habitantes e extensão territorial comparável ao estado do Rio Grande do Sul. Conhecer pessoas atingidas pelos estragos em algum nível é algo comum, o que aumenta o sentimento de empatia, aproxima todos à tragédia e potencializa a tristeza e a dor. O que impressiona nisso tudo é a postura do vizinho gigante, o Brasil. Não teve iluminação no Cristo Redentor, nem telefonema da presidenta, não teve #SomosTodosEquador, nem bandeira no perfil do facebook. Não teve nada, nem uma nota. Nesta segunda-feira (18 de abril), nenhum jornal brasileiro sequer mencionou o ocorrido em suas capas -a maioria tomada completamente pelo tema político. Nos telejornais, concentrados também no circo político, as reportegens (nenhuma com mais de 20 segundos) traziam um Equador distante, exótico, quase outro continente.

O tema da comoção seletiva foi muito debatido à época dos atentados de Paris. Na ocasião, tínhamos inclusive uma outra tragédia, em casa, a de Mariana, ainda hoje sem culpados responsabilizados. Não é novidade que o Brasil escolhe por quem chorar cotidianamente. Não é capaz de fazê-lo pelos seus mais vulneráveis, menos ainda pelos irmãos, mas é carpideira das tragédias do primeiro mundo. Ainda assim tudo isso revolta e entristece.